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Entrevista: Lúcio Brianezi para a Revista Trivela

Data: 5/4/2007
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A criança era a própria federação.
Comprar um time era como ter um novo filiado à sua entidade, o que lhe permitiria incrementar ainda mais as competições e torná-las mais charmosas. E tudo isso “de verdade”, sem uso de realidade virtual para potencializar a imaginação.
Durante a semana, cada um fazia seu campeonato interno, mas era possível, nos fins-de-semana, juntar a garotada para, cada um com seu melhor time, organizar uma espécie de Liga dos Campeões. Jogar futebol de botão era como levar o mundo do futebol para a casa de cada um.
Nesse universo, um dos destaques para os “mortais” que não tinham condições de comprar botões profissionais eram os times da Brianezi. Feitos em acetato – depois, em celulóide –, eram mais macios de se jogar que os demais, permitindo maior controle do botão a cada palhetada. Além disso, o botão era lixado à mão para ter altura variável de acordo com a função tática que o jogador tinha na equipe (zagueiros mais altos, atacantes mais baixos). Vencer ou perder dependia da habilidade do botonista, mas ter um time melhor era como contar com um Roman Abramovich para contratar reforços que os adversários não teriam.
Nos últimos anos, a Brianezi entrou em crise, como o jogo de botão em si, e acabou encerrando a produção de times. Hoje, os botões da empresa são vendidos como relíquias, a preços muito acima do que eram encontrados nas décadas de 1980 e 1990 em lojas de esportes. Para contar um pouco da história da fábrica que se tornou referência em futebol de botão para uma geração, o Balípodo entrevistou Lúcio Brianezi, diretor da empresa e filho de Paulo Brianezi, criador da marca.
O empresário, que hoje trabalha no setor de cosméticos, não esconde sua tristeza ao comentar o processo que levou a Brianezi a encerrar a produção dos times de botão. “Depois de tanta briga, fiquei até um pouco desgostoso com essa história de futebol de botão. Até tem uma mesa na garagem da minha casa, mas está lá parada há anos”, conta. Um cenário muito diferente de sua juventude, quando formou, ao lado do pai, um clube apenas para jogar botão com amigos.
Para Brianezi, os motivos que levaram à decadência do futebol de botão são bem fáceis de identificar. A concorrência com brinquedos eletrônicos – notadamente videogames – teria tirado o interesse das novas gerações e interromperam a passagem dessa cultura de pai para filho. Além disso, as brigas entre clubes e fabricantes de botão teriam tornado a produção de times de botão pouco atraentes, pois tornou-se uma medida de risco.

Veja abaixo os principais trechos dessa entrevista, concedida para a elaboração de uma reportagem sobre futebol de botão para a edição de maio da revista Trivela.

RT: Como começou o envolvimento da família Brianezi com o futebol de botão?
LB: A fábrica foi fundada pelo meu pai. Ele tinha uma loja e, como gostava muito de botão, começou a fazer os times nos fundos do estabelecimento para vender. Isso foi nos anos 1960. Em 1973, ele registrou a fábrica de botões e a tocou até morrer, em 1978. Depois, eu assumi o negócio até hoje.

RT: A empresa não fechou?
LB: Tecnicamente, não, mas a produção está parada desde dezembro de 2001. Eu ainda não dei baixa dela na prefeitura e, oficialmente, ela ainda existe. Até tenho o maquinário em um galpão e poderia voltar a fazê-los se fosse o caso.

RT: O que aconteceu?
LB: A partir da década passada, houve uma pressão muito grande de vários escritórios de advocacia, que falavam com os clubes e queriam impedir que fizéssemos os botões. Diziam que era pirataria, coisa e tal. Eu não era contra conversar com eles para a gente regularizar tudo, porque nunca quis fazer nada ilegalmente. O problema é que os escritórios exigiam um valor irreal. Acho que nem os clubes sabiam que pediam tanto em nome deles. Para se ter uma idéia, o direito de produzir times apenas dos cinco grandes de São Paulo era um valor maior que o faturamento da empresa. Assim, fiz um acordo com eles e parei de fazer os times brasileiros.

RT: Outras empresas tiveram o mesmo problema?
LB: Só as maiores conseguiam pagar. Mas eles tinham uma produção muito maior e não viviam só de botão, lançavam outras coisas com o distintivos dos clubes e pagavam o pacote. Assim, podiam diluir o custo dos royalties em outros produtos ligados a futebol.

RT: De que modo a interrupção da fabricação de clubes brasileiros atrapalhou esse mercado?
LB: Foi algo muito forte, porque os times nacionais é que mexiam com a paixão do torcedor. Os botões que mais vendiam sempre eram os dos grandes clubes e o da Seleção. Sem fazer esses times, ficou muito mais difícil.

RT: Seria possível manter esse mercado vivo se os clubes incentivassem, entrando em contato com as fábricas e lançando botões oficias de cada um?
LB: Claro. Eu nunca considerei fazer botão pirataria porque não concorria com nenhum artigo oficial licenciado pelo clube. Para mim, eu via como uma promoção do clube. Mas, se eles queriam licenciar, tudo bem, eu topava. Se fosse para lançar uma linha de “times oficias do clube”, eu também aceitaria conversar, desde que as condições fossem viáveis. Isso chegou a ocorrer uma vez com a gente e o Palmeiras.

RT: Como foi isso?
LB: Apareceu um advogado na fábrica com um mandato de busca e apreensão, querendo ver se estávamos fazendo botões do Palmeiras. Ele não achou nada e acabou me chamando para negociar, propondo um acordo. Descobri que um dos sócios desse escritório era diretor do Palmeiras aficionado por futebol de botão. Ele propôs que a gente voltasse a produzir os botões do Palmeiras e, em troca, o clube levaria 7% do faturamento com a venda desses times. Aceitei e fizemos um negócio bem legal, com o botão imitando a camisa de jogo do Palmeiras, até com nome do patrocinador da época e tudo. Ficamos um ano assim, mas acabamos parando a produção assim mesmo.

RT: Por quê?
LB: Porque a gente tinha os botões do Palmeiras, mas não tínhamos dos outros clubes. O garoto palmeirense compra o botão do Palmeiras, mas ele quer o do Corinthians ou do São Paulo para jogar contra. Além disso, a tecnologia já estava bastante avançada e a garotada já estava com mania de brinquedos eletrônicos. Jogar futebol de botão sempre foi uma coisa que passou de geração para geração. A entrada dos videogames interrompeu esse processo.

RT: Além de produzir, seu pai também lhe ensinou a jogar?
LB: Ah, eu sempre joguei. Minha vida toda. Quando meu pai era vivo, ele até criou o Grêmio Recreativo Brianezi, um clube para as pessoas jogarem. Os sócios tinham de pagar uma mensalidade, que era doada para a AACD, para fazer com que ninguém faltasse aos encontros. Era algo que a gente levava a sério.

RT: Você ainda joga?
LB: Não jogo desde que a fábrica parou a produção, em dezembro de 2001. Depois de tanta briga, tanto advogado nos ameaçando, fiquei chateado e até um pouco desgostoso com essa história de futebol de botão. Até há uma mesa na garagem da minha casa, mas está lá parada há anos.

RT: Seus filhos ao menos jogam?
LB: Aí é que está. Só tive duas meninas. Até joguei um pouco com elas, mas é claro que elas preferiam brincar de outras coisas.

RT: A impressão geral entre botonistas é que há cada vez menos praticantes desse jogo. Você também percebe isso?
LB: Eu me afastei bastante desse mundo e até estou desatualizado em relação à qualidade dos times de hoje. Mas eu percebo que não se encontram mais botões com facilidade. Eles sempre foram vendidos em lojas de esportes, mas elas também ficaram com medo por causa das apreensões e multas por venderem produtos considerados piratas. Assim, ou deixaram de vender, ou deixam escondido na loja.

RT: De que forma você, como botonista e ex-fabricante de botões, vê esse processo?
LB: Ah, é um pouco triste, porque é uma coisa que está muito ligada à minha família. Hoje, só umas poucas pessoas jogam, aqueles que são fanáticos mesmo. O pessoal não percebe que futebol de botão é algo saudável, que jogar uma partida serve como higiene mental, que pode virar lazer para colecionador, porque é possível colecionar times ou tipos de botão diferentes.

RT: Você ainda tem algum time da Brianezi com você?
LB: Não tenho nenhum, acredita? Até sei que, hoje, virou relíquia, e que as pessoas vendem pela internet por preços bem altos, mas não tenho nenhum.

Ubiratan Leal

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